quarta-feira, 17 de abril de 2013

Primeiro dia com os atores, segunda 15/04/2013


 Na segunda feira, o Hugo e não pode ficar conosco por motivos particulares. Esta semana não estará conosco.
Conversamos e vimos que não podemos esperar, que estamos ali naquele lugar e há prazos.
Então fizermos assim: enquanto Denis e Pedro trabalhavam com o texto, Eu e a Fernanda discutimos o material sonoro da peça. Antes de tudo, é uma ótima situação você escrever(texto e/ou música) para intérpretes que você sabe vão trabalhar com você. Ainda mais intérpretes criativos, que proporcionam um rico diálogo entre as partes envolvidas. O que nos une é o trabalho, uma meta comum.
Apresentei  uma proposta de arranjo para a primeira música. Escutamos, discutirmos e daí começamos a fazer alterações. Basicamente o que faço neste primeiro momento é propor uma linha melódica, uma letra e seção rítmica, para dar relacionar o material da música, seu estilo e o contexto da cena. 
Desde que comecei a trabalhar com o Hugo, aproximando mais a sala de ensaio de meu escritório, transformando a sala de ensaio em meu lugar de trabalho, tenho usado um pouco do método ateniense para apresentar materiais que serão desenvolvido: a alternância entre cenas cantadas e cenas faladas. Depois, durante o processo criativo, há uma possibilidades de sobreposição daquilo que inicialmente foi justaposto. 
Trabalhando com músicas para teatro faz um tempo, uma coisa que me guia é trabalhar com estilemas. Ou sejam, materiais sonoros reconhecíveis, identificáveis, seja pelo seu ritmo, seja pela sua melodia, seja pela sua harmonia. Assim, recicla-se algo já previamente existente. 
Nesta cena eu quis reciclar a tradição dos lamentos femininos, que vêm desde Homero. As óperas consagraram este procedimento. Então, em um primeiro momento ficou mais perto dessa tradução.  Mas eu quis isso mesmo em um primeiro momento, pensar com o material organizado, pois em música é assim. é algo para se ouvir em sua organização, em sua seleção de materiais. 
Essa primeira amostra trazia os estilemas ou clichés de algo que dava a sugestão de uma atmosfera mais pesada. E como foi feito : uma linha de baixo repetindo a mesma frase musical (em música isso é chamado de ostinato) cujo movimento é de uma queda. Subir e cair. Na região média um órgão em acordes suspensos. A percussão uma caixa com marcha militar, em ostinato também. 
O ostinato rítmico cria uma tensão melódica pois a frase rítmica que atravessa a música está em uma tonalidade e a melodia vocal em um tom relativo(subdominante). Assim essa textura buscava trabalhar com movimentos convergentes e divergentes dentro do esquema de base de repetição.
Conversando com a Fernanda, decidimos mudar as coisas. Primeiro, o caráter mais erudito da música iria limitar algumas coisas que iríamos trabalhar, no conceito de Fusion, que a gente havia discutido antes. O que a gente havia conversado era trabalhar com sonoridades que deformassem os padrões conhecidos, tipo um samba que não é samba, uma valsa que não é valsa. Ok.
Depois, a questão do andamento. O efeito meio arrastado da canção, esse cadáver sonoro, essa inércia aural, isso tinha um efeito mas em si mesmo parecia algo a ser evitado. 
Ainda, o estilo: marcar a tristeza, o pavor por uma música típica destas emoções não seria muito criativo. Então, optou-se por aproximar emoções contrastantes, já anunciando morte e alegria, tristeza e festas juntas, como se vê no coro final de Sete contra Tebas. 
Mantive a letra e a melodia,  alterei o andamento, e o estilo. Nisso, foi alterado também a melodia em ostinato, mas mantendo o caráter de repetição e queda.  A partir de sugestão de Fernanda, marcar algumas referências no texto como a dos herois. Assim, a música, mais que uma canção ia sendo arranjada em blocos, variando o estilo e o material sonoro.


Depois dessa canção, discutimos o perfil de todas as outras músicas da peça. Por enquanto temos o seguinte:


1- cena de abertura. sons de Guerra. não tornar o som ilustrativo. Usar elementos indiciais, ou seja, que remetam aos atos de luta, Guerra, como sons de vidros se quebrando, de metais em entrechoque, de líquido espesso derramado, de gritos.

2- A primeira canção da peça. Além da estrutura em definição, inserir sons de animais, para formar a esfinge(águia, leão, serpente).
3-segunda canção, trabalhar com preces, rezas. não precisa que as palavras sejam reconhecidas. Deformar esse material de rezas.
4- música para a disposição dos guerreiros. retomar e ampliar música instrumental da abertura
5- música que fala/narra a história da casa de tebas.
6- Canção em que se irmão se enfrenta com irmão. encontro. Paralelo com o fim da cena dos escudos e único momento de desestruturação emocional de Etéocles. Encontro com o irmão, encontro com a morte,encontro consigo mesmo.
7- música final os irmaos se abraçam e morrme. uma ciranda entre os atores e a esfinge. brincadeira de criança. circo. pai Francisco entrou na roda. estamos no teatro. jogo. {estou seguindo a ordem que está no texto}



na segunda parte do ensaio, trabalhamos com a definição dos atores e dos papéis, com a organização rítmica das tensões emocionais, dos movimentos paralelos e espelhados de ascensão e queda. Ainda, tendo em vista este estado inicial, trabalhamos com o esclarecimento do contexto inicial: que vem de fora, quem está dentro do palácio. O jogo dos atores começa a ser instalado. eles são um e o mesmo.

Lembrar que na tragédia, temos o encontro no mesmo espaço de duas forças de mesma grandeza e equidistantas. É a luta  dos impoderáveis.  Tais movimentos podem ser graficamente representados como linhas ascendentes e descendentes.
Para mim, que escrevi o texto é fundamental ver que o trabalho de interpretação e as dúvidas e a co-criação durante os ensaios me possibilita(ou não) indicar alguns caminhos.  Uma pista é a técnica de bloco de falas. No início eu atribuo para um mais falas. Mas depois isso muda. Pois as falas a mais começam a perder sua firmeza e com poucas falas eu posso destruir quem pretensamente se apresenta forte como as muralhas de uma fortaleza.






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